A Sin City pernambucana


Quando a face de Deus vira para o outro lado, o que impera é a lei do cão. E o Todo Poderoso nem sempre dá as caras por aqui. Verdejante é bem mais que as terras de chão batido que levam à única perimetral de acesso ao centro da cidade. É um daqueles lugares em que andar num carro diferente dos integrados ao cotidiano do município significa ser seguido de perto por pescoços à espreita, num silêncio inquisidor. De cada dez moradores, sete não têm o ensino fundamental, mas são melhores em "conta" que muitos letrados. Sabem bem que Seu Elias tem cinco esposas e, com elas, 51 herdeiros; que o recorde de furtos pertence a um menino que "atua" desde os 9 anos; ou que o infortúnio de Halervoden-Spatz acaba de chegar à quinta irmã da mesma família.

No coração do Sertão central de Pernambuco, a 503 km do Recife, a população vive sob um Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) de 0,65, o mesmo da Síria. Mas por aqui, a guerra mais famosa é aquela travada entre o nascer e o pôr-do-sol, quando vale a regra do "se vira": 84,5% dos moradores ganham até um salário-mínimo ou não têm rendimento, em um lugar onde duas em cada dez pessoas são cadastradas no Bolsa Família. A vulnerabilidade da população faria de Verdejante um município de interior como outro qualquer, mas na realidade privada de sua gente, ele se faz único, tal qual a fictícia cidade de Basin, a Sin City da obra neo-noir de Frank Miller, onde histórias fantásticas se concentram numa terra quase esquecida pelas leis de homens e de Deus.

À noite, o silêncio reforça a escuridão na Academia da Cidade, onde meninas esgueiram-se por entre instrumentos de lazer, tão públicos quanto a ausência de suas inocências. Pelas ruas, quase nunca se aproximam sirenes, apenas luzes de celulares à mão. Em cada esquina, a língua do povo acompanha vidas e passos alheios. No fim das contas, os números de ignorados pelos poderes público ou pela lei superam as contas mesmo do mais abençoado terço da "cidade do pecado".